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O Carnaval é sinônimo de música alta, madrugada estendida e brindes repetidos. Para o cérebro, porém, a soma desses estímulos pode significar sobrecarga. A exposição prolongada a sons intensos, a privação de sono e o consumo excessivo de álcool atuam em áreas centrais do sistema nervoso e, quando combinados, potencializam riscos que vão de perda auditiva a alterações cognitivas e comportamentais.

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O neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e pós-doutor pela Universidade de São Paulo (USP), explica que o impacto começa pelo ouvido, mas não termina nele.

"Uma conversa comum gira em torno de 60 decibéis, nível considerado seguro. Já blocos e shows podem ultrapassar 100 decibéis —intensidade que reduz drasticamente o tempo de tolerância do organismo", diz.

Segundo ele, sons elevados e prolongados lesam as células ciliadas da cóclea, estruturas responsáveis por transformar vibrações em impulsos elétricos para o cérebro. O dano pode resultar em perda auditiva, dificuldade de discriminar sons e zumbido persistente. Em níveis ainda mais altos —como explosões ou fogos muito próximos— a lesão pode ser imediata e irreversível.

Excesso ativa circuitos ligados ao estresse Embora o ruído não cause, de forma direta, uma lesão cerebral estrutural, ele interfere no funcionamento do sistema nervoso. O estímulo intenso mantém o cérebro em estado de alerta, dificulta o sono, altera o humor e aumenta a fadiga mental. Pessoas com maior sensibilidade sensorial, como indivíduos no espectro autista, tendem a sofrer ainda mais com sons agudos e repetitivos.

Neurologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Guilherme Olival complementa que o excesso de estímulo auditivo ativa circuitos ligados ao estresse. O cérebro interpreta a intensidade sonora como ameaça, elevando a liberação de cortisol, hormônio relacionado à resposta de alerta.

O resultado pode ser irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação de esgotamento cognitivo.

Nesse contexto, o uso de protetores auriculares não protege apenas a audição. Ao reduzir o estímulo sonoro, diminui também a ativação desses circuitos de estresse, funcionando como uma barreira indireta contra a sobrecarga neural.

Se o barulho mantém o cérebro em alerta, a privação de sono impede que ele se recupere. A primeira região a sofrer com uma noite mal dormida é o córtex pré-frontal, responsável por julgamento, planejamento e controle de impulsos. Em seguida, áreas ligadas à memória, como o hipocampo, também passam a funcionar de forma menos eficiente.

Olival explica que, após 24 horas acordado, o desempenho cognitivo pode se aproximar do observado em alguém sob efeito significativo de álcool, com prejuízo da atenção e da capacidade de reação.

Biologicamente, há aumento do cortisol, desregulação de neurotransmissores e maior ativação da amígdala, estrutura associada às respostas emocionais.

A privação repetida gera o que os especialistas chamam de “dívida de sono”. Uma boa noite pode aliviar a sensação subjetiva de cansaço, mas as funções executivas demoram dias para se normalizar.

Em casos prolongados —48 ou 72 horas sem dormir— o cérebro pode apresentar alucinações, crises convulsivas e episódios de “apagão” como mecanismo de proteção.

Picarelli ressalta que cada pessoa tem um limiar individual, mas, de modo geral, adultos precisam de cerca de 8 horas de sono por noite para manter desempenho adequado. Dormir menos por vários dias consecutivos compromete memória, raciocínio e reflexos —cenário que se repete com frequência após a maratona de blocos.

Álcool: primeiro desliga o freio, depois o motor O álcool atua como depressor do sistema nervoso central. Inicialmente, inibe neurônios responsáveis pelo controle inibitório, o que explica a sensação de euforia e desinibição nas primeiras doses. À medida que a concentração aumenta, regiões como o cerebelo (ligado à coordenação motora) e o hipocampo (essencial para a formação de memórias) passam a ser afetadas.

É nesse estágio que surgem fala arrastada, desequilíbrio e os chamados “apagões”, quando períodos inteiros deixam de ser registrados na memória. Em níveis mais elevados, pode haver depressão respiratória e coma alcoólico.

Os efeitos variam conforme a velocidade de ingestão, a presença de alimento no estômago, o metabolismo individual e a concentração da bebida.

Bebidas destiladas, com teor alcoólico acima de 40%, elevam rapidamente a quantidade de álcool no sangue.

O consumo repetido em grandes quantidades —o chamado binge drinking— pode gerar efeito cumulativo. Ao longo dos anos, o uso frequente está associado à atrofia cerebral, prejuízo cognitivo, neuropatias periféricas e deficiência de vitaminas do complexo B, além de danos hepáticos graves, como cirrose.

A combinação que multiplica riscos Separadamente, barulho intenso, falta de sono e álcool já comprometem o desempenho cerebral. Juntos, os efeitos se potencializam.

A privação de sono reduz o controle inibitório; o álcool enfraquece ainda mais esse sistema. O resultado é maior impulsividade, pior avaliação de risco e aumento da probabilidade de acidentes, conflitos e comportamentos perigosos.

A mistura com energéticos pode mascarar a sonolência, mas não reduz o prejuízo cognitivo. Ao contrário, prolonga o tempo de exposição ao álcool e pode aumentar o risco de arritmias e convulsões em pessoas predispostas.

Indivíduos com enxaqueca, epilepsia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou transtornos de ansiedade formam um grupo ainda mais vulnerável. Alterações de sono e estímulos intensos são gatilhos conhecidos para crises, especialmente em quem já tem diagnóstico neurológico prévio.

Quando procurar ajuda Após o Carnaval, alguns sinais exigem avaliação médica.

Zumbido persistente (avaliar com otorrinolaringologista com urgência). Confusão mental. Amnésia prolongada. Desorientação. Dor de cabeça súbita e intensa. Convulsões. Fraqueza em um lado do corpo. Perda visual. É possível curtir sem sobrecarregar? Os especialistas reforçam que o cérebro responde positivamente a estímulos prazerosos, como música e dança. O problema está no excesso e na ausência de recuperação.

Algumas medidas simples ajudam a proteger o sistema nervoso durante o Carnaval:

Dormir de 6 a 8 horas sempre que possível. Intercalar momentos de descanso entre os blocos e eventos. Manter hidratação adequada ao longo do dia. Evitar misturar álcool com energéticos. Usar proteção auditiva em ambientes com som muito alto.

G1

Foto: Leo Caldas/g1

Compartilhar latinhas, canudos, garrafas e até batom é comum nos blocos de carnaval de rua pelo país, mas esse hábito pode trazer riscos. A saliva pode transmitir vírus respiratórios (como covid e influenza), o norovírus (causador de surtos de diarreia aguda, vômitos e gastroenterite), a famosa doença do beijo (mononucleose), o herpes labial e até mesmo a sífilis. Por isso, especialistas destacam a importância de não compartilhar estes objetos pessoais.

canudos

O beijo possibilita a troca de germes que entram no organismo através da boca ou da saliva. Além disso, doenças respiratórias, doenças causadas por vírus, por bactérias e por fungos, e infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), também podem ser transmitidas através desse tipo de contato.

O herpes labial é causado pelo vírus HSV-1, que afeta cerca de 70% da população mundial com menos de 70 anos. No Brasil, 90% dos adultos já tiveram contato com esse vírus em algum momento da vida. “A gente vê um monte de surto de diarreia durante o Carnaval e depois por causa disso. Você não sabe onde passou a garrafinha. Então, se puder lavar com água corrente ou pegar um lenço umedecido, isso pode ser decisivo para você não começar aí no pós-carnaval com uma diarreia”, explicou o infectologista do Hospital das Clínicas de São Paulo Álvaro Furtado no Bem-Estar.

Até mesmo uma pequena lesão ativa no lábio pode transmitir o herpes labial, por exemplo.

Não há beijo 100% seguro e quanto mais bocas diferentes o indivíduo beijar, mais chances de contrair doenças ele terá. Mas não compartilhar objetos pessoais como garrafas, canudos e copos e estar com a vacinação em dia contra gripe, covid, sarampo, caxumba, rubéola e meningite já ajudam a diminuir as chances de contrair doenças por meio da saliva durante o carnaval.

G1/Bem Estar

Foto: Caio Fulgêncio/G1

Problemas da tireoide são mais comuns do que se imagina e, muitas vezes, passam despercebidos.

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Distúrbios como hipotireoidismo, hipertireoidismo e nódulos tireoidianos podem causar sintomas inespecíficos — cansaço persistente, ganho ou perda de peso, alterações de humor, queda de cabelo e intolerância ao frio ou ao calor — que nem sempre são reconhecidos na atenção primária.

Por isso, conhecer os exames da tireoide, quando solicitá-los e o que cada um revela é essencial para diagnóstico precoce e tratamento adequado.

Por que os exames da tireoide são importantes A tireoide é uma pequena glândula na base do pescoço, responsável por regular o metabolismo, a energia, o sistema cardiovascular, a saúde óssea e o eixo neuropsíquico.

Quando suas funções estão alteradas, o impacto pode ser sério, especialmente em idosos ou pessoas com doenças cardiovasculares e autoimunes.

Segundo o endocrinologista Dr. Adriano Cury, do Alta Diagnósticos, “o olhar atento do médico generalista, aliado à solicitação adequada de exames, é crucial para confirmar a suspeita diagnóstica de doenças da tireoide.”

Principais exames da tireoide TSH e T4 livre

O TSH é o exame inicial para avaliar a função tireoidiana.

O T4 livre complementa o TSH, ajudando a identificar se a disfunção é hipo ou hipertireoidismo, inclusive em suas formas subclínicas.

Em casos específicos, o T3 também pode ser solicitado.

Anticorpos antitireoidianos

Anti-TPO e anti-Tg: indicados para investigar tireoidite autoimune (como Hashimoto).

TRAb: fundamental para diagnosticar a doença de Graves, principal causa de hipertireoidismo em adultos e crianças.

Ultrassonografia de alta resolução

Avalia a anatomia da glândula, textura do parênquima e presença de nódulos.

Permite estratificar o risco de malignidade usando sistemas padronizados (TI-RADS/ATA).

Punção aspirativa por agulha fina (PAAF)

Indicada quando há nódulos suspeitos ou acima de certos tamanhos.

Ajuda a diferenciar nódulos benignos de malignos e definir necessidade de intervenção cirúrgica.

Quando solicitar os exames Alguns grupos merecem atenção especial:

Gestantes e mulheres em idade reprodutiva: alterações tireoidianas podem afetar desfechos obstétricos e o desenvolvimento fetal.

Pessoas com doenças autoimunes: diabetes tipo 1, lúpus, artrite reumatoide e outras condições aumentam o risco de tireoidite.

Pacientes com sintomas persistentes e inespecíficos: fadiga intensa, instabilidade de peso, alterações de humor, palpitações, constipação ou queda de cabelo acentuada.

O rastreamento direcionado nesses casos não é apenas preventivo, mas uma oportunidade de diagnóstico precoce e manejo eficaz.

Estratégias práticas para médicos e pacientes Solicitar TSH (com T4 livre quando indicado) em queixas inespecíficas ou histórico de doenças autoimunes.

Realizar avaliação tireoidiana em gestantes de risco conforme diretrizes da SBEM.

Investigar bócio, nódulos palpáveis ou linfonodomegalias com ultrassonografia, encaminhando para PAAF se necessário.

Incentivar hábitos saudáveis que protejam o risco cardiovascular, como controle de peso, cessação do tabagismo e manejo de hipertensão e dislipidemia.

“O caminho diagnóstico está bem estruturado, permitindo um planejamento terapêutico adequado para a maioria dos pacientes, com impacto mínimo no cotidiano”, conclui o Dr. Cury.

Saúde em Dia

Beber algumas xícaras de café ou chá com cafeína todos os dias pode ajudar, de forma modesta, a preservar a capacidade cerebral e prevenir a demência, relataram pesquisadores nesta segunda-feira (9).

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Pessoas com a maior ingestão diária de café (com cafeína) tiveram um risco 18% menor de desenvolver demência em comparação com aquelas com a menor ingestão, de acordo com um estudo baseado em respostas a questionários com 132.000 adultos norte-americanos ao longo de quatro décadas.

Publicado na JAMA, o estudo também descobriu que as pessoas com maior consumo apresentavam uma taxa menor — de quase 2 pontos percentuais — de problemas de memória ou raciocínio autopercebidos em comparação com aquelas com menor consumo.

Os resultados foram semelhantes com os chás que contêm cafeína, mas não com bebidas descafeinadas, afirmaram os pesquisadores.

Embora as descobertas sejam encorajadoras, o estudo não prova que a cafeína ajuda a proteger o cérebro, disseram eles.

A proporção do efeito da cafeína, se houver, é pequena, e há outras maneiras mais bem documentadas de proteger a função cognitiva à medida que as pessoas envelhecem, disse o líder do estudo, Dr. Daniel Wang, da Harvard Medical School, em um comunicado.

Fatores de estilo de vida associados a menores riscos de demência incluem exercícios físicos, dieta saudável e sono adequado, segundo pesquisas anteriores.

"Nosso estudo sugere que o consumo de café ou chá com cafeína pode ser uma peça desse quebra-cabeça", disse Wang.

Os resultados foram mais evidentes nos participantes que consumiram duas a três xícaras de café com cafeína ou uma a duas xícaras de chá com cafeína por dia, relataram os pesquisadores.

Aqueles que bebiam café com cafeína também apresentaram melhor desempenho em alguns testes objetivos de função cognitiva, de acordo com o estudo financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde.

Mais pesquisas são necessárias para validar os fatores e mecanismos responsáveis pelas descobertas, afirmaram os pesquisadores.

Eles observam que ingredientes bioativos no café e no chá, como cafeína e polifenóis, surgiram como possíveis fatores que reduzem a inflamação e os danos às células nervosas, ao mesmo tempo que protegem contra o declínio cognitivo.

"Também comparamos pessoas com diferentes predisposições genéticas para desenvolver demência e observamos os mesmos resultados — o que significa que o café ou a cafeína provavelmente são igualmente benéficos para pessoas com alto e baixo risco genético de desenvolver demência", afirmou em comunicado o coautor do estudo, Dr. Yu Zhang, da Escola de Saúde Pública T.H. Chan da Universidade de Harvard.

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Foto: Mike Kenneally/Unplash