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“Em última análise, o laço que une todas as relações, seja no casamento ou na amizade, é a conversa”, escreveu Oscar Wilde.

auditivo

Costumamos pensar na conversação como algo que não exige esforço. Mas por trás dessa aparente facilidade esconde-se um feito extraordinário de coordenação – uma dança perfeitamente sincronizada entre ouvir e falar.

Convocar uma única palavra em sua mente e depois dizê-la leva pelo menos 600 milissegundos. Mas o intervalo mais comum entre uma pessoa terminar sua vez de falar e a outra começar é de cerca de 200 milissegundos, independentemente do idioma que estejam falando.

Isso significa que geralmente começamos a falar antes de ter planejado nossa resposta depois que a outra pessoa terminou. De alguma forma, nossos cérebros estão sempre à frente da conversa.

Como lidamos com isso? Enquanto ouvimos, nossos cérebros funcionam como uma versão sofisticada da tecnologia de preenchimento automático de texto. Em vez de esperar que uma frase termine, prevemos continuamente como ela provavelmente terminará.

Em um estudo com colegas no Reino Unido e na Alemanha, descobrimos que pessoas com alguma perda auditiva frequentemente dependem mais dessas pistas preditivas para manter o fluxo da conversa. Mas, com o tempo, o esforço que isso exige pode ter efeitos negativos.

Enquanto os smartphones se baseiam em simples probabilidades palavra a palavra, a previsão humana é muito mais rica. Combinamos essas pistas probabilísticas com o conhecimento sobre o falante (quem ele é, do que gosta, como costuma falar), bem como do ambiente ao redor e do tema mais amplo da conversa.

Se alguém disser: “eu gostaria de usar o bonito…”, seu cérebro imediatamente restringe as possibilidades a coisas que podem ser usadas — talvez uma gravata ou um vestido. E a previsão não para por aí. Se o locutor soa como um homem, os ouvintes podem estar mais propensos a prever “gravata”; se o locutor soa como uma mulher, “vestido”.

A previsão também nos ajuda a determinar quando podemos falar. À medida que uma frase se desenrola, prevemos sua estrutura, ritmo, melodia e prováveis palavras finais. Essas previsões subconscientes de tempo nos permitem entrar na conversa com notável precisão, fortalecendo as conexões sociais ao evitar falar ao mesmo tempo que outra pessoa ou deixar pausas constrangedoras.

Como a perda auditiva afeta o processo A delicada coordenação da conversa depende de nosso cérebro ter recursos cognitivos suficientes para sustentar a previsão, o planejamento da resposta e o timing. Mas quando ouvir se torna mais difícil, o cérebro precisa se esforçar mais para identificar sons e palavras, sobrecarregando esses recursos.

Para cerca de metade das pessoas com mais de 55 anos, a perda auditiva torna a conversa cotidiana um trabalho mais árduo para o cérebro. Há menos recursos disponíveis para processos conversacionais de nível superior, tornando mais difícil manter o ritmo de aproximadamente 200 milissegundos na alternância de falas. Isso pode levar a intervalos mais longos e mais perturbadores na conversa.

Até recentemente, não estava claro exatamente por que essas lacunas mais longas surgem. Até que ponto as pessoas com perda auditiva têm mais dificuldade em prever quando alguém vai terminar de falar? E em que medida o esforço extra para ouvir as palavras restringe sua capacidade de planejar o que dizer a seguir?

Nosso estudo esclareceu essas possibilidades ao testar pessoas com idades entre 50 e 80 anos, algumas das quais apresentavam perda auditiva leve a moderada. Nós as testamos em condições de escuta que variavam de fala confortável e clara a situações em que a fala era apenas compreensível.

Isso nos permitiu separar os efeitos da perda auditiva daqueles de condições de escuta mais exigentes. Essa distinção é importante porque, embora ambos aumentem o esforço de escuta, eles podem atrapalhar diferentes aspectos da conversa.

Nossos resultados revelaram um padrão claro. Quando as condições de escuta eram confortáveis, as pessoas com perda auditiva dependiam mais das previsões do que a outra pessoa diria a seguir do que aquelas com audição normal. A previsão atuava como uma estratégia compensatória para pessoas com perda auditiva, ajudando a manter a coordenação conversacional em um nível muito semelhante ao das pessoas sem perda auditiva.

Mas quando a escuta se tornou mais extenuante porque a fala era apresentada no nível mais baixo que os participantes conseguiam entender, essa vantagem preditiva desapareceu. O esforço adicional necessário para aqueles com perda auditiva parecia deixar-lhes pouca capacidade cognitiva para sustentar seus poderes de previsão, que antes funcionavam como compensação.

Isso ajuda a explicar por que pessoas com perda auditiva podem parecer parceiros de conversa perfeitamente fluentes em ambientes tranquilos e individuais, mas enfrentam dificuldades em ambientes barulhentos, onde ouvir se torna muito mais trabalhoso. É claro que pessoas com audição normal também começam a experimentar esse efeito em bares barulhentos ou restaurantes lotados.

Perda da habilidade de conversar A conversa é uma habilidade cognitiva de alta velocidade e, como qualquer outra habilidade, se beneficia do uso regular. Quando a conversa se torna exaustiva devido à perda auditiva, as pessoas podem se isolar da interação social para evitar o esforço de manter a sincronia. Maior isolamento social está associado a pior saúde mental, física e cognitiva.

Mas uma redução na frequência das conversas que uma pessoa mantém também pode enfraquecer os mecanismos cognitivos que as sustentam – assim como um músculo enfraquece por falta de uso. Isso poderia aumentar sua relutância em conversar com outras pessoas. Esperamos explorar esse efeito de “use ou perca” em nossas pesquisas futuras.

Já ficamos surpresos com o quanto de coordenação subconsciente está envolvida nas conversas do dia a dia. Reconhecer as necessidades específicas – e as habilidades – das pessoas com perda auditiva é uma parte importante da manutenção desse “laço de companheirismo”.

Ruth Corps recebe financiamento do ESRC e do Leverhulme Trust.

Por The Conversation Brasil

Foto: Adobe Stock

Ter cáries e doença gengival ao mesmo tempo pode estar associado a um risco significativamente maior de acidente vascular cerebral (AVC). Um estudo publicado na revista científica Neurology Open Access, da Academia Americana de Neurologia, encontrou uma associação entre a combinação desses problemas bucais e um aumento no risco de AVC em comparação com pessoas que têm boa saúde bucal.

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Os resultados também indicam que a má saúde bucal pode estar relacionada a um risco 36% maior de eventos cardiovasculares graves, como ataque cardíaco, doença cardíaca fatal ou AVC.

A pesquisa não prova que os problemas bucais causem diretamente os AVCs, mas sugere que melhorar a saúde bucal pode ser uma estratégia importante — e frequentemente negligenciada — na prevenção da doença.

O que diz o estudo

O trabalho analisou dados de 5.986 adultos, com idade média de 63 anos, que não tinham histórico de AVC no início do estudo.

Todos os participantes passaram por exames odontológicos para avaliar a presença de cáries, doença gengival (periodontal) ou ambas. A partir disso, os pesquisadores dividiram o grupo em três categorias:

pessoas com boca saudável

pessoas com apenas doença gengival

pessoas com doença gengival e cáries

Os participantes foram acompanhados por duas décadas, com base em contatos telefônicos e registros médicos, para identificar quem desenvolveu AVC ao longo do tempo.

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Risco maior entre quem tem dois problemas bucais

Durante o acompanhamento, os pesquisadores observaram diferenças importantes entre os grupos.

Entre os participantes com boca saudável, 4% sofreram um AVC.

Já entre aqueles com apenas doença gengival, o índice foi de 7%.

No grupo com doença gengival e cáries, o número chegou a 10%.

Após ajustes para fatores como idade, índice de massa corporal e tabagismo, os resultados mostraram que:

pessoas com doença gengival e cáries tinham 86% mais risco de AVC em comparação com quem tinha boca saudável;

aquelas com apenas doença gengival apresentaram 44% mais risco.

Relação com doenças do coração

Além do AVC, o estudo analisou a ocorrência de eventos cardiovasculares graves, como ataque cardíaco, doença cardíaca fatal ou o próprio AVC.

Nesse panorama geral, pessoas com doença gengival e cáries tiveram um risco 36% maior desses eventos em comparação com participantes com boa saúde bucal.

Visitas ao dentista podem fazer diferença

A pesquisa também avaliou hábitos de cuidados odontológicos.

Os participantes que relataram visitar o dentista regularmente apresentaram:

81% menos probabilidade de ter simultaneamente doença gengival e cáries

29% menos probabilidade de apresentar apenas doença gengival

Segundo o autor do estudo, Souvik Sen, da Universidade da Carolina do Sul, os resultados reforçam a importância de cuidar da saúde bucal.

“Este estudo reforça a ideia de que cuidar dos dentes e gengivas não se resume apenas ao sorriso; pode ajudar a proteger o cérebro”, afirmou.

A diretora da Associação Brasileira de Odontologia Ludimila Saiter explicou ao g1 que existem dois mecanismos podem ligar uma infecção na boca a problemas cardiovasculares ou cerebrais. O primeiro é a via direta e segundo é a inflamação sistêmica.

“As bactérias da cavidade bucal entram na corrente sanguínea através da inflamação gengival e podem se alojar nas válvulas do coração ou em placas de gordura nas artérias. Além disso, uma infecção bucal crônica faz o corpo produzir substâncias inflamatórias que circulam por todo o organismo, danificando os vasos sanguíneos e aumentando o risco de infarto e AVC, por exemplo", afirmou.

Saiter destacou ainda que os dentistas costumam observar esta associação na prática, no dia a dia nos consultórios, e que a boca não é um sistema isolado. Quando uma infecção bucal severa é tratada, é comum notar uma melhora nos indicadores gerais de saúde do paciente.

“Observamos com frequência que pacientes com quadros graves de gengivite ou periodontite apresentam outras condições sistêmicas desfavoráveis, como pressão alta ou diabetes descontrolada”, disse Saiter.

Qual a frequência ideal de consultas ao dentista para prevenir doenças bucais?

A recomendação padrão de frequência ideal ao dentista para prevenir doenças bucais é a cada seis meses. Esse é o tempo médio para que o cálculo dental (tártaro) se acumule e problemas iniciais apareçam. Porém, o observar uma atipicidade na cavidade bucal o correto é agendar uma consulta imediata.

Para alguns grupos de risco — como fumantes, diabéticos ou pessoas com histórico de doença periodontal — esse intervalo deve ser menor, a cada três meses, ou dependendo da avaliação profissional esse prazo poderá ser ainda menor, quando se busca controle de doenças, segundo Saiter.

Sinais de alerta de doença gengival que as pessoas costumam ignorar

Especialistas destacam que a gengiva saudável não sangra e o erro mais comum é achar que o sangramento gengival é normal. Outros sinais ignorados são:

Lesões (feridas) persistentes – por mais de 15 dias

Sensação de 'dente amolecido'

E gengiva vermelha ou inchada

O que é o AVC isquêmico

Os AVCs isquêmicos são o tipo mais comum de acidente vascular cerebral. Eles ocorrem quando um coágulo ou bloqueio reduz o fluxo sanguíneo para o cérebro, impedindo que o órgão receba oxigênio e nutrientes.

Já as cáries são cavidades no esmalte dentário causadas pela ação de bactérias da placa bacteriana que produzem ácidos ao metabolizar restos de alimentos e açúcares. Elas geralmente estão associadas ao consumo de alimentos açucarados ou ricos em amido, além de fatores como higiene bucal inadequada ou genética.

A doença periodontal, por sua vez, é uma inflamação ou infecção que afeta a gengiva e o osso que sustenta os dentes. Quando não tratada, pode levar à perda dentária.

Limitações do estudo

Os autores apontam que a saúde bucal dos participantes foi avaliada apenas uma vez, no início da pesquisa. Assim, possíveis mudanças ao longo dos anos não foram registradas.

Além disso, outros fatores de saúde que não foram medidos podem ter influenciado os resultados.

Mesmo assim, os pesquisadores afirmam que os achados indicam que manter dentes e gengivas saudáveis pode ser uma parte importante da prevenção do AVC.

O estudo foi publicado na Neurology Open Access em outubro de 2025.

G1

Tradicionalmente, as vacinas funcionam ensinando o sistema imunológico a reconhecer um vírus ou bactéria específico – um único suspeito. Mas e se uma única vacina pudesse proteger contra dezenas de infecções diferentes ao mesmo tempo? Pesquisadores desenvolveram um potencial candidato para tal vacina, e um novo estudo em camundongos, publicado na revista Science, apresentou resultados promissores.

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O que é essa nova vacina e como ela funciona? A maioria das vacinas funciona introduzindo o sistema imunológico a um patógeno específico – uma versão enfraquecida dele ou uma proteína chave de sua superfície – para que o corpo possa reconhecê-lo e combatê-lo caso o encontre posteriormente.

Esta vacina adota uma abordagem fundamentalmente diferente. Em vez de visar um microrganismo específico, ela contém moléculas que imitam os sinais que o corpo produz naturalmente quando está sob ataque de um vírus ou bactéria. O efeito é colocar certas células imunológicas em um estado prolongado de alerta máximo, prontas para responder rapidamente a uma ampla gama de ameaças, em vez de serem treinadas para detectar apenas uma.

No entanto, as consequências de estimular o sistema imunológico além do seu estado normal só serão conhecidas após a realização de testes em humanos.

Por que é administrado como spray nasal em vez de injeção? O nariz, a garganta e os pulmões são revestidos pelo que os cientistas chamam de superfícies mucosas – os tecidos úmidos que atuam como o principal ponto de contato do corpo com o mundo exterior e sua primeira barreira contra infecções. O sistema imunológico nesses tecidos responde com mais eficácia quando uma vacina é administrada diretamente neles, em vez de em um músculo do braço.

Esse princípio já está na base da vacina contra a gripe administrada rotineiramente a crianças pequenas no Reino Unido, que é apresentada na forma de spray nasal. Pesquisas também demonstraram que as vacinas contra a COVID-19 podem bloquear a infecção com mais eficácia em animais quando administradas dessa forma, em vez de por injeção. A aplicação da nova vacina por spray nasal permite que ela alcance as células imunológicas nas regiões mais profundas dos pulmões.

Como uma única vacina pode proteger contra tantos patógenos diferentes? A vacina funciona aprimorando a comunicação entre dois tipos essenciais de células imunológicas. O primeiro tipo são os macrófagos alveolares – células grandes localizadas nos minúsculos espaços aéreos dos pulmões, onde atuam como primeira linha de defesa contra qualquer substância nociva inalada. Quando estimulados pela vacina, esses macrófagos conseguem englobar e destruir os patógenos invasores muito mais rapidamente do que o normal.

O segundo tipo são as células T, que são estimuladas a produzir respostas antivirais mais rápidas. Como a vacina reforça essas defesas gerais da linha de frente, em vez de visar um patógeno específico, ela pode, em teoria, funcionar contra uma ampla gama de ameaças.

Em ratos, também pareceu suprimir reações alérgicas – a ácaros da poeira doméstica, por exemplo – porque a forte resposta imune inflamatória que desencadeia parece substituir a resposta bastante diferente que causa as alergias.

O estudo foi feito em ratos. Quão confiantes estão os cientistas de que funcionará da mesma forma em humanos? Há uma esperança cautelosa, mas ainda não total. Existem diferenças bem documentadas entre os sistemas imunológicos de ratos e humanos, e resultados promissores em animais frequentemente não se repetem em humanos. O próximo passo crucial serão os estudos controlados de infecção em humanos – ensaios clínicos nos quais voluntários saudáveis são vacinados, expostos a um patógeno específico sob rigorosa supervisão médica e monitorados cuidadosamente quanto à segurança e à resposta imunológica.

Será que isso realmente poderia substituir várias injeções por ano? E quais injeções, especificamente? Potencialmente, sim – pelo menos para alguns. Se se mostrar eficaz em humanos, uma vacina desse tipo poderia, em princípio, substituir a necessidade de injeções anuais separadas contra gripe, COVID e vírus do resfriado comum, todos vírus de RNA, ou seja, cujo material genético é RNA e não DNA. Se isso se aplicaria a vírus de DNA – como os responsáveis pela catapora ou hepatite, por exemplo – é muito menos certo e exigiria uma investigação separada.

Quanto tempo dura a proteção e seria necessário um reforço? Em ratos, a proteção durou até três meses. Isso é consideravelmente mais curto do que as vacinas convencionais em humanos, algumas das quais oferecem proteção por anos ou até mesmo por toda a vida. Atualmente, não se sabe por quanto tempo esse tipo de vacina poderia fornecer proteção em humanos. Um período de proteção igualmente curto em humanos poderia ser visto como uma limitação real, mas não necessariamente fatal.

Se a vacina fosse administrada todos os outonos, poderia proporcionar proteção significativa às pessoas vulneráveis durante os meses de inverno, quando as infecções respiratórias atingem o pico. Mesmo uma imunidade temporária, aplicada estrategicamente, poderia salvar vidas.

Quais são os próximos passos antes que isso chegue ao público? Demonstrar segurança é a prioridade imediata. Como a vacina foi concebida para manter partes do sistema imunológico em estado de alerta elevado por um período prolongado, é necessário confirmar que isso não causa danos não intencionais ao tecido saudável.

Os cientistas também precisam estabelecer se a forte resposta inflamatória que ela desencadeia não aumenta a suscetibilidade a outras infecções – parasitas intestinais, por exemplo – cuja biologia se sobrepõe às respostas alérgicas.

O desempenho da vacina em idosos, que são os mais vulneráveis a doenças respiratórias graves, é outra incógnita importante. Durante o envelhecimento, um baixo nível de inflamação basal, conhecido como inflamação crônica de baixo grau associada ao envelhecimento (inflammaging, no inglês), também pode contribuir para doenças relacionadas à idade e reduzir a imunidade a infecções passadas.

Em quanto tempo poderíamos ter isso? O autor principal do estudo, Bali Pulendran, afirma que, no melhor cenário possível, uma vacina respiratória universal poderá estar disponível em cinco a sete anos.

No entanto, o progresso dependerá muito do desempenho dos primeiros testes em humanos. Se a vacina se mostrar menos potente em humanos do que em ratos, ou se surgirem problemas de segurança, a formulação precisará ser revisada, adicionando tempo a cada etapa.

Por outro lado, um bom resultado inicial poderia gerar impulso. De qualquer forma, desenvolver uma formulação adequada para uso humano, concluir os testes de segurança e comprovar sua eficácia contra múltiplos patógenos reais é uma tarefa substancial que não pode ser apressada facilmente.

Será que isso poderia funcionar contra futuros vírus pandêmicos que ainda nem sequer encontramos? É aqui que reside, sem dúvida, o maior potencial. As vacinas convencionais contra a gripe e a COVID-19 exigem atualizações regulares, pois os vírus sofrem mutações. E quando a cepa da vacina não corresponde exatamente à cepa que está circulando, a proteção pode ser insuficiente.

Uma vacina que coloque o sistema imunológico em um estado de alerta amplo e não específico pode oferecer uma primeira camada crucial de defesa contra um novo patógeno pandêmico, limitando doenças graves e mortes enquanto uma vacina direcionada e personalizada é desenvolvida. Em um mundo que ainda convive com a memória da COVID-19, essa possibilidade por si só já torna essa pesquisa digna de atenção.

The Conversation

Foto: © Pixel-Shot/Shutterstock.com

Já pensou poder descobrir se tem câncer de mama apenas com uma pequena amostra de sangue? Um exame desenvolvido por pesquisadores brasileiros pode ser essa solução e ajudar no rastreamento do câncer de mama.

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A tecnologia, que ainda está em fase de testes, busca identificar sinais da doença por meio de biomarcadores presentes no sangue. A ideia é que ele seja usado como teste rápido para ampliar o acesso à informação para as pacientes pelo Brasil.

A pesquisa surge em um cenário preocupante: o câncer de mama é o terceiro tipo de câncer que mais mata no Brasil e, todos os anos, cerca de 20 mil mulheres morrem da doença, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Esses números chamam atenção porque o câncer de mama tem altas chances de cura quando descoberto nas fases iniciais. Mesmo assim, muitas mulheres ainda chegam ao diagnóstico em fases mais avançadas da doença.

Um dos principais obstáculos é o acesso ao rastreamento. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a oferta de mamografia — principal exame para detectar o câncer de mama — ainda é desigual, especialmente em regiões mais afastadas e na rede pública de saúde.

No SUS, o rastreamento do câncer de mama é recomendado para mulheres de 50 a 69 anos. Em 2025, o Ministério da Saúde passou a ampliar o acesso à mamografia para mulheres a partir dos 40 anos, sob avaliação médica. No entanto, a doença vem surgindo em mulheres cada vez mais jovens e de forma agressiva, já que não há rastreamento em faixas etárias menores.

O que é o teste? A tecnologia foi desenvolvida a partir de uma pesquisa da Faculdade de Medicina do ABC. O teste usa uma técnica conhecida como biópsia líquida, que busca no sangue sinais moleculares associados ao câncer. Em vez de detectar o tumor por meio de imagens, como acontece na mamografia, o exame identifica alterações genéticas ligadas ao crescimento de células tumorais.

No RosalindTest, nome dado ao produto, os pesquisadores analisam dois biomarcadores específicos: HIF-1α e GLUT1. Esses genes costumam ter alterações quando células tumorais passam por um processo chamado hipóxia — situação em que o tumor cresce em um ambiente com pouco oxigênio.

Segundo os pesquisadores, essas alterações podem ser detectadas no sangue antes mesmo de o tumor ser identificado em exames de imagem. Nos estudos clínicos iniciais, o teste apresentou acurácia de cerca de 95%.

A proposta é que, confirmados os resultados, o rastreamento do câncer de mama no país possa ser semelhante ao que ocorre no caso do câncer de próstata, por exemplo, em que é possível usar um teste de sangue.

“A gente não pode impedir que o câncer apareça, mas podemos impedir que ele mate. E se o diagnóstico acontecer no estágio inicial, a gente quer facilitar o acesso e tornar o processo menos prejudicial para a mulher e evitar mortes”, explica Beatriz Aguiar, pesquisadora envolvida no projeto.

A pesquisadora afirma que não só ampliaria o acesso chegando aos pacientes, como oferecendo uma opção menos dolorosa, aumentado a adesão ao rastreamento. Atenção: a proposta é que o teste seja complementar aos exames de imagem, mas não substitua a mamografia. A ideia é que isso ajude o poder público a priorizar a paciente que testou positivo e também amplie a investigação nos casos em que os exames de imagem são negativos, mas há marcadores de tumores.

Teste pode ampliar acesso ao rastreamento Uma das principais apostas dos pesquisadores é que o exame possa ajudar a ampliar o acesso ao rastreamento, especialmente em regiões onde a mamografia é mais difícil.

Enquanto o exame de imagem depende de equipamentos, infraestrutura hospitalar e profissionais especializados, a coleta de sangue pode ser feita em unidades de saúde menores ou em áreas mais remotas.

Nesse modelo, o teste funcionaria como uma etapa inicial de triagem. Caso o resultado indique alterações associadas ao câncer, a paciente seria encaminhada com prioridade para exames complementares, como mamografia ou biópsia.

Em um projeto-piloto realizado em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), o exame foi aplicado em 600 mulheres que vivem no campo, no interior de São Paulo e do Ceará. Muitas delas nunca haviam realizado exames de rastreamento para câncer de mama.

Entre as mais de mil mulheres acompanhadas na fase de validação, um caso em particular chamou a atenção dos pesquisadores: um dos testes revelou o resultado mais alto já registrado pela equipe, indicando uma forte presença de biomarcadores tumorais. No entanto, ao realizar a mamografia e o ultrassom, os resultados foram negativos.

Intrigada com o sinal de alerta no sangue, a paciente buscou um especialista e realizou uma ressonância magnética, que finalmente localizou um tumor em primeiro estágio. Por ter sido descoberto precocemente, a paciente precisou apenas de uma intervenção cirúrgica, sem a necessidade de passar por tratamentos agressivos, como quimioterapia ou radioterapia.

Teste ainda tem limitações Especialistas que não participaram da pesquisa avaliam que o projeto é promissor, mas destacam que ainda são necessários estudos maiores para confirmar a eficácia da tecnologia.

Para o mastologista e cirurgião oncológico José Carlos Sadalla, iniciativas que buscam ampliar o acesso ao diagnóstico são importantes, especialmente diante das dificuldades enfrentadas por muitas pacientes no sistema público.

Porém, ele aponta ressalvas sobre a especificidade do exame, observando que os biomarcadores pesquisados podem estar alterados em outros tipos de câncer, e não apenas no de mama.

Sadalla ressalta que o teste ainda é uma “promessa” em fase de validação e que o número de pacientes testadas ainda precisa crescer para garantir segurança em larga escala.

“É uma pesquisa brasileira e isso é muito legal. O estudo preliminar é bom, mostra que essas proteínas estão mais aumentadas no câncer do que em pessoas saudáveis, mas ainda foi testado em um número pequeno de pessoas. É uma promessa, então vamos com calma, mas, se funcionar, vai ser um excelente apoio para o rastreamento.”

G1

Foto: divulgação