O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) publicou nesta quinta-feira (22) uma resolução que permite que enfermeiros prescrevam antibióticos para pacientes, ampliando formalmente o rol de medicamentos que podem ser indicados por esses profissionais.
A medida vem na esteira de uma atualização feita no ano passado pela Anvisa no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), que passou a incluir o registro profissional de enfermeiros.
O sistema monitora as movimentações de entrada (compras e transferências) e saída (vendas, transformações, transferências e perdas) de medicamentos comercializados em farmácias e drogarias privadas do país.
Com a atualização, a agência reconhecia o registro do enfermeiro nas receitas para fins de monitoramento. A permissão da prescrição, no entanto, dependia de uma resolução do Cofen, que é quem regulamenta a permissão -- o que aconteceu com essa publicão.
O documento atualiza a lista de medicamentos que podem ser prescritos por enfermeiros e inclui os antibióticos:
amoxicilina azitromicina eritromicina Eles podem ser prescritos por enfermeiros tanto para adultos, quanto para crianças.
Em nota, o Conselho Federal de Medicina (CFM) afirmou que a prescrição de medicamentos deve ser competência exclusiva dos médicos, que podem garantir a determinação correta do prognóstico.
"Compete aos enfermeiros apenas a prerrogativa de disponibilizar medicamentos em programas de saúde pública e rotinas institucionais já estabelecidas e após diagnóstico médico, não tendo competência para prescrever antibióticos", afirmam. O CFM ainda alerta que, com a ampliação, o Cofen "afronta a legislação brasileira e o Supremo Tribunal Federal (STF), além de colocar a saúde da população brasileira em risco".
No ano passado, quando houve a atualização o CFM também agiu e se posicionou contra a autorização. A entidade havia entrado na Justiça contra uma resolução que permitia que enfermeiros do DF prescrevessem antibióticos.
Ao longo das últimas quatro décadas, a obesidade consolidou-se como uma epidemia de proporções globais. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a prevalência da condição quase triplicou no período, atingindo todas as regiões do mundo. Em publicação recente, a entidade estima que a obesidade esteve associada a cerca de 3,7 milhões de mortes em 2024 e que o número de pessoas vivendo com a condição pode dobrar até 2030.
Diante do agravamento do problema, os tratamentos farmacológicos avançaram nos últimos anos com o desenvolvimento de novos medicamentos. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, em janeiro de 2023, o Wegovy®, medicamento à base de semaglutida, para o tratamento de sobrepeso e obesidade em adultos com comorbidades.
A mesma substância está presente em medicamentos como Ozempic® e Rybelsus®, inicialmente aprovados no país para o tratamento do diabetes tipo 2, embora tenham conquistado popularidade pelo efeito de perda de peso. Já o Mounjaro® (tirzepatida) foi a princípio registrado pela Anvisa, em 2023, para o tratamento do diabetes. Em junho de 2025, a Anvisa ampliou a indicação do Mounjaro para tratamento de obesidade e sobrepeso com comorbidade.
Ambos os medicamentos, quando prescritos e adquiridos em farmácias regulamentadas, integram tratamentos reconhecidos pela medicina. Fora desse contexto, quando vendidos sem receita ou pela internet, passam a representar riscos à saúde. No entanto, a crescente demanda global por esses medicamentos extrapolou as indicações terapêuticas aprovadas, impulsionando um aumento expressivo do uso sem prescrição e sem acompanhamento de profissional de saúde, especialmente com finalidades estéticas.
Todos esses produtos vêm sendo amplamente divulgados e vendidos pela internet, nas redes sociais, por algumas clínicas de estética, farmácias de manipulação e centros de bem-estar, colocando potencialmente as pessoas em risco. Esse movimento acendeu alertas em autoridades sanitárias, especialistas e laboratórios fabricantes tanto pelo uso indevido quanto pela circulação de produtos falsificados ou de baixa qualidade, frequentemente comercializados em cadeias de suprimento não regulamentadas.
No Brasil, 77% da população utilizam medicamentos sem prescrição médica, de acordo com o Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF/SP). Esse cenário é potencializado pela forte presença digital do país, que, conforme a Comscore, ocupa a terceira posição mundial no consumo de redes sociais e figura como o segundo país com maior volume de buscas na internet por Ozempic e Mounjaro.
Nesse contexto, a pesquisa Automedicação e acesso irregular às canetas emagrecedoras: um desafio de saúde pública identificou um aumento de 35% no consumo dessas substâncias emagrecedoras, sobretudo entre mulheres jovens, impulsionado pela ampla oferta em farmácias e plataformas online.
Produtos falsificados e riscos invisíveis Além do uso inadequado, a baixa qualidade dos produtos comercializados ilegalmente na internet agrava ainda mais o problema. O estudo Multifactor Quality and Safety Analysis of Semaglutide Products Sold by Online Sellers Without a Prescription analisou a venda de semaglutida em seis farmácias online irregulares, selecionadas por oferecerem preços reduzidos e não exigirem prescrição médica. Dos pedidos realizados, apenas três frascos injetáveis foram entregues, enquanto as canetas anunciadas não chegaram ao consumidor, evidenciando práticas fraudulentas recorrentes nesse mercado ilegal.
Os produtos recebidos foram classificados como falsificados ou de baixa qualidade. A inspeção revelou falhas em 59% a 63% dos critérios avaliados, além de frascos contendo até 38% mais medicamento do que o indicado no rótulo. Embora bactérias ou fungos vivos não tenham sido identificados, todas as amostras apresentaram endotoxinas, substâncias tóxicas capazes de provocar reações adversas. A pureza do princípio ativo também foi significativamente inferior ao informado pelos vendedores, variando entre 7,7% e 14,37%, muito abaixo dos 99% anunciados.
A vulnerabilidade dos consumidores é preocupante. Pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) em parceria com o Datafolha, revela que a segurança regulatória tem pouco peso na compra de produtos para emagrecimento pela internet. Menos de 5% dos consumidores consideram o registro na Anvisa como critério de escolha. A maioria (54%) é atraída pela promessa de resultados rápidos, prática proibida pelas normas da agência.
Comentários de outros usuários influenciam 24% das decisões, enquanto a verificação da regularidade do fabricante é ignorada por 48% dos compradores e a do produto por 51%. Cerca de 70% sequer confere a existência de número de registro na embalagem.
Comércio ilegal que pode causar mortes Casos de apreensão de canetas emagrecedoras falsificadas, contrabandeadas ou vendidas de forma irregular vêm se repetindo no Brasil. Muitos consumidores acreditam estar adquirindo apenas versões contrabandeadas do medicamento original, geralmente mais baratas, mas a realidade apontada pelas autoridades é mais grave.
Em outubro do ano passado, a Polícia Civil de Goiás desarticulou um esquema de comercialização irregular do Mounjaro e apreendeu medicamentos sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No mesmo período, em Minas Gerais, a Polícia Militar Rodoviária Estadual apreendeu 236 ampolas avaliadas em cerca de R$ 300 mil, que teriam sido adquiridas no Paraguai e declaravam conter tirzepatida.
A pesquisa Automedicação de semaglutida para a perda de peso no Brasil relata que, embora a semaglutida tenha sido originalmente indicada para diabetes tipo 2 e obesidade clínica, o seu uso se expandiu de forma indiscriminada para fins estéticos e emagrecimento rápido sem supervisão médica e resultou em diversos problemas de saúde, desde sintomas gastrointestinais até complicações mais graves, como retinopatia e aumento do risco de câncer. Em nota, a fabricante Eli Lilly esclareceu que produtos provenientes do Paraguai que alegam conter tirzepatida — como Lipoless, TG e Tirzec –, não são equivalentes ao Mounjaro@. Afirmou ainda que já foram identificadas reações adversas graves e a presença de substâncias ilegais em medicamentos injetáveis manipulados para emagrecimento com potencial de provocar infecções e complicações que podem ser fatais.
Em linha com esses alertas, a empresa farmacêutica Novo Nordisk (Wegovy, Rybelsus e Ozempic) tem reiterado que é a única detentora dos registros concedidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a comercialização de medicamentos à base de semaglutida no Brasil. A fabricante não fornece nem autoriza o repasse de seus medicamentos a farmácias de manipulação ou a outros fabricantes. A Anvisa também se manifestou sobre o tema. Por meio da Nota Técnica nº 200/2025, o órgão estabeleceu orientações e determinações sobre a importação e a manipulação de insumos farmacêuticos ativos, incluindo a semaglutida e a tirzepatida. No documento, destaca a complexidade desses ativos e informa que, no caso da semaglutida, apenas a versão de origem biotecnológica, produzida de forma industrial e presente em medicamentos registrados, possui segurança e eficácia reconhecidas. Ou seja, a semaglutida obtida por síntese química e suas preparações não têm respaldo legal no país. Quanto à tirzepatida, a Anvisa esclarece que a manipulação é permitida, desde que sejam rigorosamente cumpridos os padrões de qualidade, segurança e eficácia que as farmácias de manipulação são obrigadas a garantir.
Até 31 de março de 2024, a agência reguladora Food and Drug Administration, dos Estados Unidos, havia recebido mais de 100 notificações de eventos adversos associados a produtos falsificados de tirzepatida e semaglutida desde 2020. Os registros incluem casos com risco de vida, 19 hospitalizações e ao menos duas mortes, embora nem todas as denúncias tenham origem plenamente esclarecida.
O desafio da comunicação científica na era digital As redes sociais digitais se consolidaram como o principal espaço de promoção e normalização do uso irregular de medicamentos para emagrecimento. Em vídeos virais, posts patrocinados e anúncios disfarçados de orientação médica, esses produtos são apresentados como soluções rápidas e milagrosas, muitas vezes sem qualquer respaldo técnico-científico.
O consumo desses medicamentos não aprovados fora dos canais regulados representa um risco concreto à saúde pública. Torna-se difícil identificar sua origem, monitorar efeitos adversos e adotar medidas regulatórias eficazes. Na prática, a circulação irregular compromete os sistemas de farmacovigilância, sobrecarrega o Sistema Único de Saúde (SUS) e amplia a exposição da população a danos evitáveis.
Esse cenário ganha novos contornos diante de anúncios recentes, como o de que a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) fechou acordo para produzir as chamadas canetas emagrecedoras no Brasil. Os pesquisadores do estudo Fato ou Fake? Uma análise da desinformação frente à pandemia da Covid-19 no Brasil alertam que anúncios desse tipo tendem a ser rapidamente explorados por produtores de desinformação, que se apropriam do nome de instituições de alta reputação para dar aparência de legitimidade a conteúdos enganosos.
A partir da análise desse cenário, este artigo defende a adoção de campanhas informativas claras e acessíveis à população, a ampliação de mecanismos de escuta social para identificar dúvidas, medos e narrativas em circulação, e o fortalecimento de canais institucionais de denúncia voltados à comunicação de vendas irregulares e conteúdos enganosos.
Essas ações, aliadas ao monitoramento contínuo das redes por meio de estudos empíricos, como análises de sentimento e o mapeamento de conteúdos falsos nas redes sociais digitais e aplicativos de mensagem, podem subsidiar políticas públicas mais eficazes e o aprimoramento da regulação das plataformas digitais. Sem dados e participação social, o combate à desinformação fica limitado; com eles, é possível reduzir riscos, coibir práticas ilegais e proteger a saúde da população em um ambiente digital cada vez mais decisivo para as escolhas em saúde.
*Claudia Galhardi é também pesquisadora-colaboradora do Center for Research in Communication, Information and Digital Culture, Universidade Nova de Lisboa e membro do Observatório de Conteúdos Audiovisuais da Universidade de Salamanca (USAL).
**Renata Tereza Gonçalves Pereira é diretora-presidente da Sociedade Brasileira Cientifica de Farmácia Estética (Sobracife) e coordenadora do Grupo Técnico de Farmácia Estética do Conselho Federal de Farmácia (CFF).
** *Este texto foi publicado originalmente no site The Conversation Brasil
Campanhas de saúde usam cores para alertar a população e incentivar a prevenção ao longo de todo o ano. Algumas, como o Outubro Rosa e o Setembro Amarelo, já são amplamente reconhecidas, mas outros meses também trazem alertas importantes.
As cores não fazem parte de um calendário oficial único e podem variar conforme a entidade promotora, mas são amplamente usadas como estratégia de comunicação em saúde. Apesar de existirem muitas datas, especialistas afirmam que elas continuam sendo importantes para promover a prevenção e o diagnóstico precoce.
Para César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), concentrar todas as ações em um único período não seria viável. “Uma campanha isolada pode ter mais impacto, mas não é possível concentrar a prevenção de todas as doenças em um único período, porque isso exige tempo”, diz.
Ele afirma que algumas doenças, principalmente as mais comuns, precisam de espaço próprio no calendário. “Nesses períodos, sociedades médicas, imprensa e redes sociais concentram informações e ampliam o alcance da prevenção”, afirma Fernandes.
Um estudo brasileiro, publicado na revista Public Health in Practice e baseado em dados de 2017 a 2021, mostrou que a campanha Outubro Rosa, voltada à prevenção do câncer de mama, aumentou em até 39% o número de mamografias realizadas nos últimos três meses do ano.
"Mesmo com espaço nas redes sociais, o governo precisa ir além da divulgação e aproveitar esses meses para mobilizar todo o aparato de saúde, com exames, rastreamento e diagnóstico, garantindo que as campanhas se tornem efetivas", afirma César.
Janeiro Branco e Roxo O ano começa com o Janeiro Branco, campanha voltada à saúde mental. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina, o tema ganhou mais espaço no debate público nos últimos anos.
“Houve uma maior conscientização. As pessoas sabem que transtornos ansiosos, depressivos e doenças psiquiátricas mais graves existem e podem acometer qualquer pessoa, seja na família, no trabalho ou na comunidade”, afirma.
Em janeiro também acontece o “Janeiro Roxo”, que alerta para a hanseníase, doença pouco conhecida e cercada de estigmas.
A hanseníase é causada pela bactéria Mycobacterium leprae, identificada em 1873 pelo cientista Armauer Hansen. Os países com maior detecção de casos são os menos desenvolvidos ou com alta densidade populacional. No Brasil, o Ministério da Saúde registrou mais de 17 mil casos novos em 2022.
Em muitas situações do dia a dia, pequenas fontes de som, como o mastigar de alguém, o clique repetido de uma caneta ou o barulho de mensagens chegando no celular, passam despercebidas pela maioria das pessoas, mas em alguns casos esses ruídos menores começam a causar irritação intensa, desconforto e até vontade de sair imediatamente do ambiente, levantando dúvidas sobre o que está acontecendo e se há algo de errado com a saúde emocional ou com a audição.
O que significa sentir irritação com barulhos pequenos?
Quando a irritação com sons discretos se torna frequente, isso pode indicar uma alteração na forma como o cérebro está processando os estímulos sonoros. Em vez de filtrar o ruído de fundo, a mente destaca certos sons e passa a interpretá-los como ameaçadores ou extremamente desagradáveis, gerando tensão e impaciência.
Nesse contexto, a sensibilidade a barulhos costuma estar ligada a estresse crônico, ansiedade, sobrecarga sensorial, cansaço extremo ou dificuldade em relaxar. Em algumas pessoas, ruídos pequenos disparam pensamentos repetitivos e sensação de falta de controle, o que não é “frescura”, mas um sinal de que o organismo está reagindo de forma mais intensa aos estímulos ao redor.
O que é misofonia e como diferenciá-la de outros quadros?
Um dos termos mais citados quando se fala em irritação com sons pequenos é a misofonia, nome usado para descrever uma reação emocional muito forte e específica a certos ruídos repetitivos, como mastigar, respirar alto, digitar ou bater o pé no chão. Nesses casos, o som funciona como um gatilho quase imediato para irritação intensa ou necessidade urgente de se afastar do ambiente.
A misofonia não está ligada ao volume do som, mas ao tipo de ruído e ao significado que ele ganha para a pessoa, muitas vezes envolvendo sons de familiares ou colegas de trabalho. É importante diferenciá-la de quadros como hiperacusia (sons em geral parecem mais altos) ou condições neurológicas e psiquiátricas, o que exige avaliação profissional para entender melhor a origem do incômodo.
Quais fatores podem aumentar a irritação com ruídos do dia a dia?
A irritação com barulhos pequenos costuma ser potencializada por um conjunto de fatores emocionais, ambientais e físicos, e nem sempre é apenas o som em si que incomoda. Aspectos da rotina, do nível de estresse e de saúde mental podem deixar o sistema nervoso mais vulnerável aos estímulos sonoros.
Entre os fatores que frequentemente contribuem para esse aumento de sensibilidade auditiva e emocional, destacam-se:
Estresse prolongado: períodos de muita pressão mantêm o organismo em estado de alerta constante.
Privação de sono: noites mal dormidas reduzem a tolerância a estímulos e elevam a irritabilidade.
Ambientes barulhentos: ruído constante, como trânsito ou escritórios abertos, aumenta a fadiga mental.
Ansiedade e sobrecarga sensorial: excesso de estímulos visuais, sonoros e digitais facilita o esgotamento.
Como lidar com a sensibilidade a barulhos pequenos?
Quando o incômodo com sons discretos começa a prejudicar concentração, convívio social ou bem-estar, algumas estratégias práticas podem ajudar a reduzir o impacto. Ajustar o ambiente, usar fones com cancelamento de ruído e combinar regras de convivência sonora em casa ou no trabalho são medidas simples que podem trazer alívio.
Também é útil identificar gatilhos específicos e cuidar de fatores gerais de saúde, como sono e manejo do estresse, recorrendo a técnicas de relaxamento e, se necessário, à ajuda profissional. Em casos persistentes ou muito intensos, psicólogos, psiquiatras e otorrinolaringologistas podem investigar causas e indicar terapias voltadas ao manejo da ansiedade, reestruturação de pensamentos e avaliação de possíveis alterações auditivas ou neurológicas.