Dois estudos publicados pela revista Science na quinta-feira (24) indicam que 14% dos infectados pelo novo coronavírus que manifestam sintomas graves possuem deficiências imunológicas que podem ser causadas por fatores genéticos ou de origem autoimune.

De acordo com uma das pesquisas, liderada pela Universidade Rockefeller, de Nova York, e pelo Hospital Necker for Sick Children, de Paris, 10,2% de um total de 987 pacientes com pneumonia grave causada pela covid-19 apresentavam, no início da infecção, anticorpos que bloqueavam a ação das glicoproteínas conhecidas como interferons (IFNs) tipo I.

Os IFNs são produzidos pelas células humanas e têm função determinante na defesa do organismo, interferindo na replicação celular dos patógenos.

Isso significa que o próprio sistema imunológico do indivíduo impede uma resposta adequada contra o vírus e, além disso, poderia explicar a maior vulnerabilidade de homens e de pessoas com mais de 65 anos, o que justifica, em parte, que a resposta individual ao SARS-CoV-2 varie tanto de pessoa para outra.

Os pesquisadores identificaram que, em alguns casos, os anticorpos contra os interferons tipo I foram detectados em amostras de sangue coletadas antes de os pacientes serem contaminados pelo patógeno e, em outros, foram encontrados pela primeira vez nos estágios iniciais da covid-19.

Dos 101 pacientes que apresentaram esses anticorpos, 95 eram homens, o que sugere a presença de algum fator genético que, de certa forma, poderia favorecer o aparecimento desse fenômeno em indivíduos do sexo masculino.

Nesse sentido, a hipótese "favorita" dos cientistas é a de que as mulheres estariam mais protegidas contra este fator autoimune devido à recessividade do cromossomo X (XX), ao contrário dos homens (XY).

Uma evidência que deu força a esta teoria foi o caso de uma das mulheres que participou do estudo. Ela possui uma rara condição que silencia um dos cromossomos X e estava entre os pacientes em estado grave e com anticorpos contra os IFNs tipo I.

Por outro lado, cerca da metade dos pacientes que possuíam os anticorpos tinha mais de 65 anos, enquanto, entre os mais jovens, o índice foi de apenas 38%, o que pode indicar um aumento desse fator imunológico com a idade.

O estudo também investigou a presença desses anticorpos em um grupo de controle com pacientes assinomáticos ou com sintomas leves, e nenhum deles apresentou esses anticorpos. E apenas 0,33% das mais de 1.200 pessoais saudáveis analisadas testaram positivo.

A descoberta permitirá identificar quais pessoas infectadas pelo coronavírus Sars-CoV-2 têm maior probabilidade de desenvolver sintomas graves e facilitará a adaptação de tratamentos os portadores de anticorpos contra IFNs tipo I.

Mutações genéticas agravam infecção pelo novo coronavírus

A outra pesquisa publicada na quinta-feira (24) pela Science também encontrou falhas genéticas que resultaram em respostas inadequadas dos interferons nos infectados pelo novo coronavírus.

O estudo, que contou com a participação de hospitais espanhóis, sequenciou o DNA de 659 pacientes hospitalizados com pneumonias graves causadas pelo SARS-CoV-2, e também formou um grupo de controle com 534 infectados assintomáticos ou com sintomas leves.

Os pesquisadores procuraram diferenças entre os dois grupos analisando 13 genes conhecidos por impactarem produção e também da ação de interferons tipo I, quando apresentam falhas.

Segundo as análises, 3,5% dos doentes em estado grave apresentaram raras alterações em oito dos 13 genes apresentaram mutações. Além disso, nos pacientes que tinham amostras de sangue disponíveis, foi possível comprovar números extremamente baixos de interferons.

Enquanto isso, nenhum dos integrantes do grupo de controle apresentou alterações genéticas.

"Durante os últimos 15 anos, mutações nesses 13 genes já foram descritas em casos específicos e excepcionalmente graves de outras infecções virais, como influenza ou encefalite causada pelo vírus da herpes", explicou o integrante do grupo de pesquisa em imunologia do instituto de pesquisa Vall d'Hebron (VHIR), de Barcelona (Espanha), Roger Colobran.

"O que nos surpreendeu neste estudo é a alta frequência com que encontramos essas alterações em pacientes com covid-19 grave", acrescentou Colobran.

Por sua vez, a geneticista do Instituto de Pesquisa Biomédica Bellvitge (Idibell), Aurora Pujol, afirmou que "agora que sabemos uma das causas moleculares de alguns jovens terem desenvolvido formas graves da doença, será possível adaptar as opções terapêuticas, como o tratamento com interferons".

Segundo Pujol, a lista de mutações descoberta também podem ser relevante para o combate a outros vírus e tende a crescer à medida que mais estudos sejam conduzidos.

"Pacientes com covid-19 com maus prognósticos e que não apresentam nenhuma dessas alterações podem ter alguma patologia anterior não diagnosticada ou outras suscetibilidades genéticas que causam uma resposta imune incorreta", esclareceu a especialista.

 

R7

bebmorrecovidNessa quinta-feira, 24, o Piauí contabilizou mais 12 mortes por covid-19. Entre os óbitos está o de um bebê de três meses, a vítima mais nova do coronavírus no estado.

Os principais números desta quarta-feira (23/09)

- 12 mortes confirmadas / 2.085 no total

- 598 casos confirmados / 93.399 no total

- Média dos últimos 7 dias: 10 mortes / 565 casos

- UTIs: 211 internados (ocupação de 57,18%)

A Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi) informou que o bebê do sexo feminino era de Teresina e possuía cardiopatia congênita - problemas cardíacos estão entre as comorbidades que tornam pacientes parte do grupo de risco para o coronavírus.

Das 2.085 mortes registradas desde março, 13 são de crianças e adolescentes de até 19 anos.

Em maio, um bebê de dois meses também perdeu a vida para a covid-19, mas no município de Timon (MA), vizinho da capital piauiense. Um outro caso foi registrado em Iguatu (CE) - um bebê de três meses com síndrome de Bartter.

Novos óbitos

O número de municípios com vítimas da covid-19 subiu para 172. Riacho Frio entrou na lista com a morte do único morador que havia infectado pelo coronavírus até hoje - ele tinha doença cardiovascular.

Dos 12 óbitos contabilizados nesta quinta-feira, seis são da capital e seis do interior.

- Itainópolis - 1 (mulher, 35 anos)

Total do município: 3

- Padre Marcos - 1 (mulher, 62 anos)

Total do município: 3

- Picos - 1 (mulher, 76 anos)

Total do município: 67

- Pimenteiras - 1 (mulher, 25 anos)

Total do município: 2

- Regeneração - 1 (mulher, 55 anos)

Total do município: 2

- Riacho Frio - 1 (homem, 81 anos)

Total do município: 1

- Teresina - 6 (mulheres, 03 meses, 56, 62 e 68 anos; homens, 99 e 100 anos)

Total do município: 995

Os números podem incluir tanto mortes ocorridas nesta quinta-feira como de dias anteriores, mas que somente agora tiveram o resultado do exame do coronavírus recebido pela Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi). Os casos e óbitos de todos os municípios estão na tabela em nosso gráfico diário.

Casos confirmados

Em relação ao boletim da Sesapi do dia anterior, o Cidadeverde.com verificou aumento de casos em 79 municípios, sendo a maioria deles em:

- Teresina - mais 209 casos

Total do município: 31.004

- São Raimundo Nonato - mais 39 casos

Total do município: 1.233

- Parnaíba - mais 31 casos

Total do município: 6.704

- Floriano - mais 28 casos

Total do município: 2.521

- Piripiri - mais 23 casos

Total do município: 2.308

O levantamento do Cidadeverde.com usa dados divulgados pela Sesapi e compara os números mais recentes com os do dia anterior. Por isso, pode haver divergência com os boletins divulgados pelas prefeituras, a depender de quando esses números são contabilizados pelo órgão estadual. Os casos e óbitos de todos os municípios estão na tabela em nosso gráfico diário.

Situação hospitalar

O número de leitos para pacientes com covid-19 que estão ocupados voltou a registrar redução mais acentuada: de 532 para 511 em relação ao dia anterior.

Também houve recuo nas internações em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), que passaram de 220 para 211.

Os outros leitos ocupados são clínicos (297) e de estabilização (3).

O total de altas médicas chegou a 4.448 - mais 47 em relação ao dia anterior.

 

cv

coviddremdDois estudos clínicos independentes – um conduzido por pesquisadores do Centro de Terapia Celular (CTC), em Ribeirão Preto, com o anticorpo monoclonal eculizumabe e outro por cientistas da Universidade da Pensilvânia (Estados Unidos) com uma droga experimental chamada AMY-101 – observaram um efeito anti-inflamatório importante, capaz de acelerar a recuperação de pacientes com COVID-19 em estado grave. Os resultados das duas pesquisas – que tinham como objetivo comparar o potencial terapêutico dos compostos – foram divulgados em artigo publicado na revista Clinical Immunology.

Os dois medicamentos foram administrados separadamente. O anticorpo monoclonal, que já é usado no tratamento de doenças hematológicas, foi testado em pacientes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Já o candidato a fármaco desenvolvido pela farmacêutica norte-americana Amynda foi administrado a pacientes de um hospital em Milão, na Itália. Ambos apresentaram resultados promissores, mas como a molécula AMY-101 é mais barata e teve um desempenho ainda melhor no teste clínico, os dois grupos de pesquisa consideram testá-la em um grupo maior de pacientes no Brasil.

“Os dois compostos causaram uma resposta anti-inflamatória robusta que culminou em uma recuperação bastante rápida da função respiratória dos pacientes”, diz à Agência FAPESP Rodrigo Calado, coordenador do estudo no Hospital das Clínicas da FMRP-USP e integrante do CTC – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)

Os pesquisadores constataram que os benefícios terapêuticos do eculizumabe e da molécula AMY-101 foram proporcionados pela inibição de uma cadeia de proteínas do sangue responsáveis pela resposta imunológica, chamada sistema complemento.

A ativação persistente e descontrolada do sistema complemento é responsável pela resposta inflamatória exacerbada à infecção pelo SARS-CoV-2, caracterizada por um aumento sistêmico de citocinas pró-inflamatórias – conhecido como “tempestade de citocinas”.

Incapaz de impedir a infecção das células pelo vírus, o sistema complemento entra em uma espiral de ativação descontrolada e contínua que leva a uma infiltração maciça de monócitos e neutrófilos nos tecidos infectados. Esse quadro leva a danos inflamatórios persistentes das paredes dos vasos que circundam múltiplos órgãos vitais, à lesão microvascular disseminada e à trombose, culminando na falência de múltiplos órgãos.

“Estudos anteriores já apontavam o uso de inibidores do complemento como uma estratégia terapêutica promissora para melhorar a tromboinflamação em pacientes com COVID-19 e existiam relatos de casos com resultados positivos. Porém, não tinha sido elucidada a ação e avaliada a eficácia de medicamentos já usados no tratamento de doenças hematológicas causadas por alterações no complemento, como o eculizumabe, e candidatos a fármacos com essa função, a exemplo da AMY-101”, afirma Calado.

A fim de avançar nesse sentido, os pesquisadores fizeram dois estudos clínicos para comparar a eficácia biológica da eculizumabe com o peptídeo sintético AMY-101 em pequenos grupos independentes de pacientes com COVID-19 em estado grave.

Um grupo de dez pacientes internados no Hospital das Clínicas da FMRP-USP, com idade entre 18 e 80 anos, recebeu uma vez por semana durante o período de internação uma dose de 900 mg de eculizumabe – que inibe a proteína C5 do sistema complemento. Outros três pacientes internados em um hospital em Milão, na Itália, receberam durante a internação uma dose por semana de 5 mg de AMY-101, desenvolvida para inibir a proteína C3 do sistema complemento. Juntas, as proteínas C3 e C5 desempenham as atividades mais importantes no sistema complemento.

Os resultados das análises das respostas clínicas indicaram que o eculizumabe e a AMY-101 provocaram uma resposta anti-inflamatória robusta, refletida em um declínio acentuado nos níveis de proteína C reativa (CRP) e interleucina 6 (IL-6), que foi associado a uma melhora acentuada da função pulmonar dos pacientes.

A inibição da proteína C3 pela molécula AMY-101 proporcionou um controle terapêutico mais amplo, caracterizado pela recuperação mais rápida de linfócitos, declínio acentuado do número de neutrófilos e maior atenuação da tromboinflamação induzida pela resposta inflamatória exacerbada à infecção pelo SARS-CoV-2.

“Os resultados dos ensaios clínicos mostram que a inibição de componentes do sistema complemento causa uma diminuição bastante intensa da inflamação”, afirma Calado.

Novo estudo

Em razão dos resultados promissores dos dois ensaios clínicos, os pesquisadores do CTC e da Universidade da Pensilvânia estão planejando realizar um estudo clínico de fase 3, com a participação de mais de 100 pacientes com COVID-19 em estado grave. Os pacientes serão tratados apenas com AMY-101, a fim de avaliar a eficácia da molécula de modo mais amplo.

O estudo será conduzido no Hospital das Clínicas da FMRP-USP e envolverá, provavelmente, outras instituições de pesquisa no país.“Uma das vantagens da AMY-101 é que o custo é muito menor do que o eculizumabe, que é um medicamentos mais caros”, compara Calado.

 

Fapesp

Foto: Phil Noble/Reuters