Em casos graves de câncer, tumores impedem o fluxo do líquido produzido pelo fígado, a bile, cujo acumulo causa complicações que prejudicam a qualidade de vida dos pacientes. Para trazer bem-estar aos portadores da doença, pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) desenvolveu uma técnica de cirurgia inovadora.

O método combina ultra-som para localizar a obstrução e endoscopia para drenar o líquido acumulado e colocar uma prótese que melhora o fluxo da bile. Testada com sucesso em seres humanos, a técnica pode ser usada clinicamente.
A bile, ao lado do suco gástrico e do suco pancreático, é um dos líquidos envolvidos na digestão. “Ela é responsável por fragmentar alimentos com proteínas, para que sejam absorvidas pelo corpo”, explica o médico endoscopista Everson Luiz de Almeida Artifon, responsável pela pesquisa e professor do Departamento de Cirurgia da FMUSP.
A bile chega até o intestino por meio do ducto biliar, um canal que passa por dentro do pâncreas. “Em casos de câncer, grande parte dos tumores acontecem na cabeça do pâncreas, o que provoca uma obstrução do ducto biliar e mantém a bile estagnada, parada”.
O grande acúmulo de bile aumenta o risco de uma infecção conhecida como colangite, quando o líquido acumulado acaba impregnando os terminais nervosos da pele, provocando coceiras. “Ao mesmo tempo, parte da bile circula pelo sangue, causando icterícia, condição que deixa a pele com uma forte coloração amarelada”, relata Artifon.
A obstrução pode acontecer ainda em casos de tumores da papila maior do duodeno, onde passa a bile a caminho do intestino.
Outra causa de obstrução é o colangiocarcinoma, um tipo de câncer que ocorre nas células que revestem o ducto biliar. “Em todos esses casos, uma solução paliativa para o problema é fazer uma colangiografia endoscópica (exame endoscópico das vias biliares e pancreáticas), com ou sem o auxilio da ecoendoscopia, para acessar o ducto biliar, introduzir uma sonda e fazer a drenagem”, descreve o médico.
“Em alguns casos, o ducto é substituído por uma prótese metálica, que permite dar maior vazão ao líquido”, descreve o médico.
Ultrassom e endoscopia
Segundo Artifon, as técnicas convencionais de cirurgia também podem fazer a drenagem da bile, mas com a desvantagem de eventuais complicações. “Por esse motivo, foi desenvolvida uma técnica de ecoendoscopia, que combina ultrassom e endoscopia, para realizar o procedimento”, destaca. O método é chamado de colédoco-gastrostomia ecoendoscopia.
O ultrassom endoscópico, em contato direto com o pâncreas e via biliar, rastreia a parte obstruída do ducto biliar. “Através da fase terapêutica do procedimento e sob o controle endoscópico, que é um tubo digestivo flexível com uma câmera na ponta, a obstrução é recanalizada com a colocação da prótese”, diz o médico.
No método endoscópico tradicional (CPRE), o ducto biliar era substituído por um tubo plástico fino. “A maior desvantagem dessa prótese era seu diâmetro reduzido, de apenas 2,2 milímetros (mm)”, afirma Artifon. “Desse modo, passou a ser feita a colocação de uma prótese metálica, um tubo de 12 milímetrso de diâmetro, que permite melhorar substancialmente a vazão da bile em direção ao intestino”. Testada com sucesso em seres humanos, a técnica já pode ser usada clinicamente.
O médico ressalta que o principal objetivo da técnica é otimizar o acesso biliar e a drenagem efetiva da bile, melhorando a qualidade de vida do paciente com tumor avançado do confluente biliopancreatico (junção do duto biliar e do ducto pancreático, local com maior ocorrência de câncer). “Em casos mais graves de câncer, a expectativa de vida do paciente é pequena, entre três e cinco meses”, afirma.
“O método evita complicações causadas pelo acúmulo de bile no corpo, proporcionando melhor bem-estar ao portador de câncer e com isto determinando boa sobrevida ao paciente com curto tempo de vida, ou seja, dignidade”.
Jornal da USP
Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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