Você sabia que as bactérias intestinais podem impactar sua saúde desde a infância até a velhice? Um estudo recente revelou que o microbioma intestinal – conjunto de microrganismos que vivem no nosso intestino – pode influenciar o metabolismo e o risco de desenvolver doenças como obesidade e diabetes tipo 2.
A pesquisa, publicada na revista The Lancet Regional Health – Europe, analisou a relação entre o microbioma intestinal e a saúde metabólica em diferentes fases da vida.
Os resultados indicam que a diversidade dessas bactérias intestinais está ligada a indicadores de saúde como percentual de gordura corporal, níveis de colesterol e risco de doenças cardiovasculares.
Apesar de as descobertas serem promissoras, ainda há desafios para transformar esse conhecimento em recomendações práticas.
Entenda o que esse estudo descobriu e o que isso significa para sua saúde.
O que é o microbioma intestinal e as bactérias intestinais Nosso intestino abriga trilhões de microrganismos, incluindo bactérias intestinais, vírus e fungos.
Esse conjunto forma o chamado microbioma intestinal, que desempenha funções essenciais no nosso corpo, como:
Auxiliar na digestão de alimentos e na absorção de nutrientes; Produzir vitaminas importantes, como a vitamina K e algumas do complexo B; Fortalecer o sistema imunológico, ajudando a proteger contra infecções; Regular o metabolismo, influenciando no peso corporal e nos níveis de açúcar no sangue. Quando há um equilíbrio entre as bactérias boas e ruins no intestino, o organismo funciona melhor.
No entanto, fatores como alimentação pobre em fibras, estresse e uso excessivo de antibióticos podem prejudicar esse equilíbrio e aumentar o risco de doenças.
Agora que você já sabe o que são as bactérias intestinais, vamos entender como elas foram analisadas neste estudo e o que os cientistas descobriram.
O que o estudo analisou? Os pesquisadores analisaram dados de três grupos de pessoas de diferentes idades, todas moradoras da Holanda:
Crianças de cerca de 9 anos (Generation R Study – GenR); Adultos mais velhos, com média de 62 anos (Rotterdam Study – RS); Um grupo de adultos de 45 anos, usado como validação (Lifelines-DEEP Study – LLD). Os participantes forneceram amostras de fezes para análise do DNA das bactérias intestinais.
Além disso, os pesquisadores coletaram dados sobre dieta, atividade física, exames de sangue (como glicose e colesterol) e medidas corporais (como percentual de gordura e circunferência da cintura).
O objetivo era verificar se havia um padrão no microbioma que estivesse ligado à saúde metabólica e quais fatores influenciavam essa relação.
Os dois tipos de microbioma intestinal Ao analisar os dados, os cientistas identificaram dois grupos principais de microbioma intestinal:
Cluster H (saudável) – Caracterizado por uma maior diversidade de bactérias intestinais, incluindo grupos benéficos como Christensenellaceae e Prevotella. Cluster U (não saudável) – Apresentava menor diversidade microbiana e maior presença de bactérias como Streptococcus e Fusicatenibacter, que podem estar associadas a processos inflamatórios. Os resultados mostraram que indivíduos do Cluster U (não saudável) apresentavam maior risco de problemas metabólicos.
O que isso significa na prática? Crianças no grupo Cluster U tinham maior percentual de gordura corporal, níveis elevados de triglicerídeos e sinais de inflamação no organismo.
Adultos mais velhos do Cluster U tinham maior risco de resistência à insulina, obesidade abdominal e pressão alta.
Na coorte de validação, adultos do Cluster U também apresentaram maior prevalência de obesidade e menor nível de colesterol HDL (o “bom” colesterol).
Ou seja, a composição das bactérias intestinais está diretamente relacionada a indicadores de saúde e pode ter um impacto cumulativo ao longo da vida.
Microbioma intestinal e risco de doenças cardíacas Uma descoberta interessante foi a relação entre o microbioma e o risco de doenças cardiovasculares.
No grupo dos adultos mais velhos, aqueles com microbioma do tipo Cluster U, não saudável, tinham um risco aumentado de desenvolver doenças cardíacas nos próximos cinco anos.
No entanto, quando os pesquisadores analisaram o acompanhamento a longo prazo (6,5 anos), essa diferença não foi estatisticamente significativa.
Isso significa que, embora haja uma tendência de associação entre o microbioma e o risco cardíaco, mais estudos são necessários para confirmar essa relação.
O que pode influenciar a saúde do microbioma intestinal? Os pesquisadores também analisaram fatores que poderiam influenciar a composição das bactérias intestinais. Alguns dos principais foram:
Nível socioeconômico: Crianças cujas mães tinham menor nível de escolaridade eram mais propensas a ter um microbioma menos saudável. O mesmo ocorreu em adultos com menor nível educacional. Tabagismo: O estudo identificou o tabagismo como um dos fatores que influenciam a composição do microbioma intestinal, mas mais pesquisas são necessárias para entender essa relação com maior precisão. Uso de medicamentos: Certos remédios, como inibidores de bomba de prótons (usados para refluxo), também influenciaram a composição microbiana. Esses achados reforçam que o microbioma não é determinado apenas pela genética, mas também pelo ambiente e hábitos de vida.
Como melhorar a saúde do microbioma intestinal? Embora o estudo não tenha testado intervenções diretas, já se sabe que alguns hábitos podem favorecer um microbioma mais saudável.
Veja algumas dicas para cuidar das suas bactérias intestinais:
Tenha uma alimentação rica em fibras: Consuma frutas, verduras, legumes e grãos integrais. Esses alimentos servem de alimento para as bactérias benéficas. Inclua alimentos fermentados na dieta: Iogurte natural, kefir, kombucha e chucrute contêm probióticos, que ajudam a equilibrar o microbioma. Evite o consumo excessivo de ultraprocessados: Alimentos ricos em açúcar, gorduras saturadas e aditivos químicos podem prejudicar o equilíbrio das bactérias intestinais. Pratique atividades físicas regularmente: Exercícios ajudam a regular o metabolismo e também influenciam positivamente o microbioma. Evite o uso indiscriminado de antibióticos: Esses medicamentos podem eliminar não apenas bactérias ruins, mas também as benéficas, alterando o equilíbrio intestinal. Limitações do estudo e próximos passos Embora esse estudo traga informações valiosas sobre o papel das bactérias intestinais na saúde metabólica, há algumas limitações a serem consideradas:
O estudo usou um método de análise que não identifica todas as espécies bacterianas com precisão. Isso significa que ainda há lacunas na compreensão dos microrganismos específicos envolvidos.
A relação entre microbioma e risco cardiovascular não foi conclusiva. Mais pesquisas são necessárias para confirmar essa conexão.
Os participantes eram predominantemente holandeses. Isso pode limitar a aplicação dos resultados para outras populações com dietas e estilos de vida diferentes.
Os dados alimentares foram coletados anos antes da análise do microbioma. Como a alimentação influencia diretamente a composição bacteriana, essa diferença de tempo pode ter impactado os resultados.
Mesmo com essas limitações, os achados reforçam a importância do microbioma na saúde e sugerem que intervenções precoces podem ajudar a prevenir problemas metabólicos no futuro.
Saúde Lab